terça-feira, 25 de outubro de 2011

Pequeno Tratado da Noção - II

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É de se esperar que, ainda que de fato se espere, não há muito de certeiro nos atos esperançosos: trabalhamos com conjecturas que se realizam numa perspectiva estatística, de altas ou baixas probabilidades. Extrapolar os meios reais do possível, que encontramos na estipulação de certos critérios de probabilidade, é crer na sorte, em algo sobrenatural qualquer. Os juízos que se pautam nesta delimitação antropomórfica ou mesmo que se relacionam com outra área de observâncias devotas, de fé e misticismo, são, com efeito, descartáveis pela ciência fina por seu teor inventivo, socialmente construído e historicamente explicável.
A estrutura do nosso mundo, ou seja, do universo lingüístico sobre o qual edificamos nosso mundo, deve tender ao maximalismo atingível pela lógica empírica: que, não obstante também discurso e linguagem elaborada nos meios sensíveis da representação, tem uma fixidez no real, na objetividade crua e não nos pré-julgamentos religiosos, culturais ou do tipo. – E o fator ludens dessas discussões pretensiosamente epistemológicas reside no ponto nevrálgico de que não se é convencido jamais por elas, apetecendo-se até mais do que o normal o gosto e o prazer por aquelas orações vespertinas perante um ídolo escrupuloso de sempre: antigo, velho, arcaico, obsoleto ou, quiçá, infante.
 


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Espermas da Enésima Arte: Magritte

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Um esturjão pousou-me no ombro, e gracejou-se de mim. Contei-lhe baixinho as histórias das noites mil e das belezas do nosso país – o que nos rendeu um bom proveito do tempo. Passados os casos num acaso sem rumos de volta, senti pesar-me à força o peso real daquele animal, que de peixe não garantia mais do que o nome. Indaguei-lhe as razões da contradição aparente, da forma entranhada em substância outra: um ser alado tomado por espécie das águas – mas não se pode saber de tanto, sabendo-se que tantas arestas da lógica nos escapam; e punha tudo a perder nessa questão, uma e duas vezes perdido o entendimento. Obtive um batistério como resposta, no máximo da sua mínima atenção. Inconformado com a necessidade identitária provinda dos meus intentos mais ingênuos e viciados, voou de volta o esturjão, envolto em rancor e asco diante dos fatos.



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Às cegas

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Vai-se em sujos traços,
Por entre frestas de escassa luz,
A dúbia cor que ainda vejo
Do estertor do teu olhar.

Rompe-se em claro estalo
Ao findar da silhueta errante
A tenra imagem-lucidez
Que dos trajes teus eram reais.

De um aqui tão próximo
Faz-te então outra, distante.
E, dos sentidos já não posso,
Perceber de ti coisa qualquer.

À consciência um crasso fardo,
À mente inteira uma prisão:
Ao ver-te por não vê-la,
Em torpor exangue de cegueira
Sou eu ausência apenas, solidão.


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terça-feira, 11 de outubro de 2011

Metafísicas do "ethos" - I

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Apanhei ao acaso em uma antiga biblioteca o fatídico Livro dos Juízos. À primeira impressão não obtive amparo elucidativo para entender a temporalidade do que se grafava ali como “juízos”: se eram os do princípio, os do final ou aqueles dos dias de intermédio. Penetrando superficialmente suas páginas, num ato lógico de leitura contraditória, descobri o que não se podia querer, uma vez contingentes a fonte e a vontade de saber: foi descoberto por mim que os “juízos”, todos eles, eram na verdade estórias da infância – e de uma inocência na criação de suas fábulas e metáforas que qualquer pessoa que na vida brincara de faz-de-conta podia compreender de antemão, candidamente velada, a moral da história.



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sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Pequeno Tratado da Noção - I

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O problema das soluções problemáticas está no fato de serem elas a conjunção de uma miríade de objetos e questões sempre novas, ou seja: na formulação de outros problemas nascentes que reclamam sua aquiescência e legitimidade sócio-epistemológica. Ainda encontramos as diatribes do tempo para impedir o entendimento mútuo à primeira mão, ou, para ser mais latinamente frontal na descrição, à primeira face. Nossas boulai de hoje não funcionam à base silogístico-democrática como as de antanho, quando os probouleuma não passavam de problemas dos helenos: seu povo, sua nobreza, seus escravos, seus estrangeiros, bem como outras peculiaridades que a história olvidou.
A linguagem deste tempo diuturnamente vivido por vós e, salvo engano, por nós, a despeito de ser em igual silogisticamente estruturada, prescinde de certos preciosismos da fala e cria pontos discutíveis a cada momento mais recentes, dificilmente imagináveis pelos solucionadores de problemas que ocupavam assentos da Pnyx. O paradigma gnosiológico que se apresenta em um texto dessa estirpe, faça-se o exemplo que apresento, deveria nos intrigar tanto quanto intrigara o sâmio Pitágoras a existencial possibilidade do número irracional, posto que digno de ser um problema que antecede/ultrapassa as instâncias da democracia clistenesiana e suas sucessoras. E, pergunta-se, à guisa de indagação afirmativa, a constar a racionalidade de um mundo assim virtualizado, não se dissocia ela por qualquer virtude de consistência própria da irracionalidade frugal de uma raiz quadrada de dois.



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