domingo, 22 de agosto de 2010

Melodia



O bater infindável 
das estacas em minha mente; 
a tosse das pessoas cansadas da vida;
aqueles gritos perdidos 
no meio de uma rua qualquer; 
o farfarlhar das asas 
da mosca se debatendo à própria morte;
os sussurros do estômago 
em remorsos do alimento passado;
o ronco indistinguível 
das entranhas em brusco movimento;
a confusão de vozes 
que voam nos ares secos dos hospitais públicos;
o choro da criança 
que não tem mais do que fome;
as palmas do vendedor incansável 
que passa o dia todo
sem uma piedade alheia sequer;
o respirar dos narizes e pulmões 
na ânsia sem fim 
de um oxigênio que não acaba;
o estalo do beijo dos macacos evoluídos 
que se dizem certos amores.

Tudo isto é música 

para alguns ouvidos 
- talvez também para os meus.





Existência




Pudesse eu ser explicado em palavras,
nestas que nada dizem de tudo,
o que diria desta vida,
destes restos a que chamam de mundo?

Não são tão mim quanto tu:
todos uns pedaços do mesmo incompleto?


E estas faces a nos olhar...

- um nós de seres sem rostos!

Vede, o quem sou não mais me importa

e nem o deve insistir.
Já estou vivo: 
respira em mim algo sem volta.
Somente sentirei, daqui em diante,

aquele suor frio e constante 
do meu ego
a intentar de inventar

o que faço comigo.







Dois cães



Da morte dos cães,
que é morte igual,
dupla, quantificada,
sem raízes no além-uivo,
– o que nos resta,
senão a cruel e insensata
arte de olvidá-la?
Mais nos basta à fome e desejo
a carne
que suas vidas poupadas...




segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Cliofagia





Para uma história da eternidade,
nego-a em suas letras maiúsculas;
enterro seus saudosismos lingüísticos
e rechaço os copiosos sentidos
ritualmente atribuídos
ao impossível tempo sem fim-início.

Brado, ao pulsar da raiva,
vozes assim ditas qual aviltantes.
Expilo, logo, como em orgasmo arredio
e intermitente,
os sons da superfície profunda
deste pseudo-ser meu distante.

Ouçamos de outrora,
Santos do Ofício,
as claves atonais, sinais
e harmonias candentes
da tal deusa difusa chamada História:
descartáveis restos sobrados são,
em pleonasmos de incerto retorno
– pois que outra coisa seriam?



Relicário


Seu anti-sexo,
desprezado há tempos pelos homens,
tem deveras hoje influência,
sobre todos, muito profunda:
do senso estético fizeram-se traços reais
e as cores subjetivas de sua conduta
são quase unânimes nas flâmulas
ostentadas aos montes pelas ruas
deste mar de gente insone
que perdeu, mesmo tendo ou não,
uma simples qualquer razão.

Vede: és além dos ídolos
e, ainda idolatrada,
permaneces suspensa como os demais.
Contudo, a dívida per capta que por ti temos
perpassa o atual novelo cabalístico
ao qual ofertamos, de ritual a rituais,
nossas vidas próprias
em seu louvor

Porquê existis,
certamente ao nunca saberemos:
quando-onde a transcendência 
de seu espírito e corpo
fizer-se notar nos seus restos mortais.




Meretrismo

.



Estás tão triste e quieta,
minha adorável
– O que te aflige
poderia eu,
indigno e deplorável,
saber da tua voz?

...

Muito bem,
aceito assim, quase calado,
a resposta tal qual m’escondes.
Vou-me então,
sem mais delongas,
como quer quem não quer nada,
para o leito ali seguinte.
– Se o dinheiro que te banca,
a teus vícios supre
e a esta sanha estanca,
de minha parte não queres ter,
outra tua amiga, de prontidão,
(e não só uma!)
certamente há de o querer.


.

domingo, 15 de agosto de 2010

Sinopse

.


Era a vida que vagava pelos cantos,

ou a morte a disfarçar-se em prantos?

Eram as vísceras de um corpo abandonado,

ou o ser de alguém ali jogado?

Era um espelho que se partira em pedaços,

ou um qualquer a juntar seus destroços?



O que era, contudo, já deixou de ser;

e, daqui de fora não se faz mais amanhecer.

Nem, como antes, iludidos somos tanto:

pois o saber, aportado lá no caloroso cais,

legou-nos o tédio latente

de não sermos, tão-só, animais.



Infeliz ou felizmente,

– é indiferente a diferença –

fico, agora, nesta instância

a cavar as profundezas da lembrança:

lembrar de quando livre fui,

quando era o bom “Eu me sirvo”

em momentos de alívio e bonança.



Ah! Festas onde matávamos gente

e delas livremente nos alimentávamos

no torpor cego do deleite.

Tempo-espaço de onde o homem frutificado,

por natural potência o mais forte,

tirava o sopro do corpo

àqueles ditos de menos sorte.




Mas aqui a rima acaba,

não segue pois se enfada;

a piedade queda,

os sentimentos findam.

Todavia, no que é mundo aí adiante,

tudo e todos ainda vão:

meramente em contínuo buscar

um leve morrer que não fale ou cante.


.

Piores Versos



Minhas blasfêmias chegam ao fim.
Penso ser meu raciocínio
amiúde escasso em criá-las novamente.
Voltaria para olhá-las de perto
todos os dias pela manhã,
mas tempo me falta
quanto às obrigações prosaicas
que excedem o normal prosaísmo.

A vida frugal tem rompido a raiva
que me manteve vivo,
de fato e com efeito,
nestes anos todos.
Sou um ser, enfim,
pacificado e findo
nestas horas hodiernas
de um relógio qualquer. 


Pequena repulsa



Aquela angústia mostrou-se pesada,
sentida aos poucos
por não se sentir tanto mais.
Foi-se no tempo
o espaço garbo de sempre,
desconfortável, ora,
até na memória 
de fazê-lo lembrar.

Retidos no corpo,
os ricos traços de uma infância cuidada
ainda formam protótipo
de potência fraudada e incolor:
descrições morfológicas
não as desperdiçaria um bom pintor.

Mas, quê seria o ofício 
desta esquecida arte em circunstâncias tais?
Bem sabem os que vivem:
Mais vale prostituir-se,
levando consigo a aposta do gênio próprio,
a transitar sedento
por rumos nada ditosos ou normais.
Contudo,
demasiado sabem dos graus além do prostrar-se
aqueles já há muito habitantes de um beco qualquer
- e nada querem, simplesmente. 



sábado, 14 de agosto de 2010

Saudosismo ingrato



Não estão meus poetas
em cabeceiras de leitos quaisquer:
Tenho-os todos encerrados
nalgum lugar debaixo dos pés,
sob este chão de vidro,
em que, teimosamente,
ergueram tal chamada habitação.

Ah, a casa de minhas vidas!
dos dias belos e inocentes
de um Outrora falido
desversado,
porém 'inda por bem de reduto usado,
(alcova-tempo)
onde se faz parir qualquer absurdo
feito como ninho de pássaros engaiolados
que, não obstante não abandonados,
ou livres de vez,
servem ao seu dono para despejo e fuga:
um monturo que fica – e se acaba.




Festim Filosófico

 

Filosofar os filosofismos,
falando as finas frases
feito fezes frutificadas,
fez que forjados fossem
os frescos filhos filosofantes.
 
Flertar a formosa flor,
fascínio farto, felicitante,
num fluxo fiel ao firmamento
é força fácil e financiável.
 
Facúndia fanha futilizada,
filtrada em flocos fragmentais,
fadada ao féretro da fábrica:
função-funcionalidade; fases finais.
 
Fez-te de fato familiar,
fantoche e farsa -
Oh fabulosa Filosofia!
 


Franqueza



Não louvarei os valores do atraso,
esta moral arcaica que vige aqui.
O saudosismo vão dispenso sem caso:
apraz-me dizer o que mereces ouvir.

Verdeja a ignorância nos vastos pastos
que ostentas, Vila Franca, como jardins.
Reluzem feito ouro de tolo os cascos
dos que desfilam em igrejas e botequins.

Ilustra as finas castas um orgulho crasso,
pintado com a furta-cor da humildade.
E, malgrado a ventura do espólio escasso

entrega-se o povo teu a veleidades...
– Quê fará a juventude deste fracasso?
Vá: despertai da modorra, Velha Cidade!




FRACASSO



No princípio,
tentei a Música:
Ah, quantas vezes quis
por aí sair a cantar
empunhando qualquer violão,
violino, cítara – harpa!
mas não: fiz além do audível
e desisti.

De modo igual,
da mesma maneira, ou forma,
despendi tempos e tempos
naquilo a que chamam Esporte.
Fui paciente até onde pude;
discutimos bastante,
contudo não é ele, como se espera,
assim tão tolerante:
Despedi-me sem malas
– não as levei, de fato.

Depois disso,
concomitantemente, talvez,
– recordações não as recordo mui bem –
aceitei um convite da vontade
e mergulhei, com a cabeça e mãos adiante,
no turbilhão das imagens e cores
que compõem, ou impõem, à Pintura
a substância dita das artes.
Com o pincel, no entanto,
logo de início rompi.
Bebi, babei e sujei-me nas tintas
tanto e mais tanto
que hoje até sou,
como vês,
quase branco.
– Nem telas ficaram!
Rasgaram-se todas,
ou rasguei-as; não importa.

Sei que segui perseguindo.
Empunhei uma espada,
certa vez, anacronicamente,
forjei missões magnas
e vesti o libré de herói.
Muito nisto, porém, não insisti:
deixei que ficassem lá quietas as armas
nos armazéns da violência animal.

Eis, senhores, enfim,
por onde me vou nestas horas,
a tatear sem remorsos os rastros
que de mim atrás são histórias.
Se daquele passado fiz caso,
e entretive-me a contar os meus passos,
temo, Oh belas senhoras,
aqui, ao ler tais versos agora,
provar nas fezes d’algum criador
o alimento que, transubstanciado,
tornou deste eu escritor.




Desfecho Homérico




Parai o espetáculo!

Caríssimos convivas:

ofereço uma terna taça,

do melhor vinho aqui servido,

à memória já ida, escassa,

daqueles que, outrora ídolos,

galgaram custosamente

- decerto por desgraça -

a escadaria celeste dos vencidos.




sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Fluxo

Perdeu-se em palavras
num ato furtivo, esquivado,
a nada expressar.
Era teso o olhar,
agora lacrado,
intentando uma imagem de si,
ali,
nos seus débeis restos divisar.

Soaram vocábulos de anti-matéria,
falados sem concepção mental prévia,
que, ao saírem sentido ao vento voraz,
refletiram-se em ecos nas paredes de névoa.

Vozes estas seriam,
malgrado o instante olvidado,
indeléveis marcas
na idéia de ser disto feito homem.