segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Politeia

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Tenho do espectro o espírito e sua sacralidade profana, da política dos altares me escapando somente a pólis. Reconheço entre rostos cobertos a igualdade dos meus párias, pareados na lida diária do trabalho imaginário em concretude. Empresto-lhes a comoção pública em duas ou três vias impressas, para que não falte legalidade às legítimas marchas suas, nas idas e vindas da ignara turba dos falidos. Redijo de bom grado a pauta dos discursos magnos no idioma tido oficial, sem que a assinatura me pese ao caráter e vaidade. A lavratura das atas demandadas às sucursais competentes e nos autos manuais incluídas outrora faço-a ainda agora, em ritual incomparável aos tempos arcaicos quando dos instrumentos fálicos da pena industrial. Era-me repugnante ter de abortar as trincheiras para vestir os librés da urbanidade pacífica; sentia-me imprestável qual pedra de rio levada pelo fluxo eterno das águas. Mas de ora ao momento, não: embora passível de morte e equívocos similares, meu pendor decisório travou-se no decurso das coisas, firmou-se na engrenagem sistêmica e sintética da dialética ativa à qual me presto. O que me ocorria ao inconsciente, centenas de dias por ano, então passou do mundo feérico da onírica arte ao redobrado estilo verossímil do nosso andrajo atual. Mal-trajados e maltratados, pensamos estar a caminho de um futurístico amanhã, infenso e prático nos tratados naturais de direito dos povos e das suas gentes demasiado díspares. Sou tanto mais indivíduo, livre e apto à vida em contínua reprodução, quanto ao máximo intento projetar os liames desse pacto recusado, pleiteado em segredo e propagado entre arestas e parênteses indecomponíveis de passados revolucionários. E tomo-me pelo presente a encampar este mote, este fito e fardo sem meados no fim que justifiquem o mínimo moralismo dos meios. Veia e artéria de um processo, extingue-se em incompletude essa práxis sedimentada geográfica e ludicamente, repintada outras vezes ao sabor, ao gosto da inércia pobre e miserável das massas constitucionais. Tendo estado dentro e vindo de fora, recobro toda a pantomima do modus operandi dessas multidões e vendo minha mais-valia abaixo do preço científica e socialmente teorizado: a partida sai sem rumos certos, em busca de um invento perdido, de redutos calmos e confortáveis para à sombra crepuscular repousar a cabeça entre os dedos calejados das minhas mãos invisíveis.


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