segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Partida do Porto

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Paro perante a ponte.
Pondero se é possível,
prudente ou plausível,
a possibilidade
de peripatear por ela
e penetrá-la as profundezas.
Pudera e posso placidamente
passear pelos palacianos pátios
e pedregosas pradarias próximas.
Porém, para o presente,
pois em que pese à paciência,
prescindo dos provérbios passados:
procrastinado pouco a pouco,
pintado em palavras, pensamento,
é o penhor da Parca que preciso pagar.
Porquanto pularia de prontidão,
pontuo prolixamente a paisagem,
pregado o parapeito ao peito,
e pressinto em potência e pathos.
Parto.


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Paródias da Criação - I

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Não é preciso dizer muito para tratar de pouca coisa. Os fatos constam por si, a despeito da crua reinvenção da carne que deles se alimenta.


E Deus, em meio a todas as suas impossibilidades metafísicas, tinha na própria virgindade a razão magna do seu sofrimento. Já escrito e acabado o livro de História desta simplória eternidade, e pressupondo-se saber ele de cabo ao fim cada uma de suas laudas, tal escolha determinante da própria intransponível abstenção sexual, por certo mal calculada no tempo zero, rendeu-lhe a úlcera que tanto se oculta nas linhas criminais paralelas da vida neste mundo.



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Banquisa

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Despejei aquele fôlego seco sobre o monturo inebriante do meu corpo. Ajoelhado em reverência ao vácuo refletido, juntei as mãos e premeditei uma graça forçada, fingida em pequenos flocos de antigas fórmulas oracionais. Cedi por alguns segundos ante a ânsia insaciável daquele devir azul quebradiço e entretive minha consciência com o pouco mais do que nada à frente dos dentes desta boca, a que possuo e integra meu rosto em sinal de humanidade. Ingerindo o líquido necessário para suprir a fraqueza dos músculos e a gula áspera da garganta, enchi calmamente a mesma ânfora de sempre dos nossos antepassados mortos – estes com seus ossos de um tempo, amolecidos e imprestáveis, debaixo agora de qualquer terra crescida, eles e suas histórias.


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terça-feira, 13 de setembro de 2011

Descanso

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Restava o solo da sua casa, umedecido e difuso. Repousei então as costas, e com elas foi tudo o que sobrava do corpo – a cabeça e a palma das mãos relutantes um pouco. Ao cabo de alguns minutos incontados, somando-se a rápida caída do tempo sob efeitos noturnais, vi-me sem forças acabado ali, sem os escrúpulos da infância para falar qualquer coisa. A urina presa já anestesiava seu respectivo órgão de contenção com o excesso alcoólico que os rins filtraram diligentemente – e, por não apontar nada na saída, percebia adormecer toda a região do púbis, bem como a genitália, esta que ocupava uma função subalterna nesta ordem dos fatos. Tentei com nenhum sucesso, duplamente em vão, erguer-me dali: a potência estava distante dos meus atos e músculos, já desperdiçada nos braços de uma deplorável, desprezível e perdida na vida que não servia nem para limpar a josta de algum reles animal da urbs. Todavia o anti-desejo, desisti; deixei minha forma e substância esparramadas naquele espaço abjeto, a saúde de anos e mais anos de cevada e mel – eu, que nada tivera com a extravagância além da hybris da psique.


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sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Raskólnikov revisitado - I

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Este dinheiro em pouca quantia é de certa via o necessário. Está ao meu lado a velha que desejei morta outro dia, e ainda hoje – ser imprestável a ocupar um lugar, por viver ao haver um sistema previdenciário público e todas as suas parafernálias patrimonialistas, além de tantas outras benesses herdadas do justíssimo tempo. O meio de transporte em movimento: era de meu interesse jogá-la pelo meio da janela para que caísse lá bem no meio da rua, cada meio por sua vez. Anseios à parte, tateio novamente o dinheiro que sabia de casa tratar-se da conta exata – contudo, de um cálculo em essência equivocado. Precisava mesmo era de um espaço folgado entre o ganhar o salário e o ter de gastá-lo com qualquer obrigação. Sustentar os bolsos repletos ou vazios fazia-se questão importante de se pensar; mas não ali, a ladear aquele desprezível espécime humano enquanto imagens passam à volta e não se chega a nada.


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Alethéia

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Aquela porta que se abre encerra um sono denso, envolto em felpudas colchas à sombra da apagada luz de uma noite. A cruzar o limiar que me separa do mundo, aqui nesta alcova antiga, antevejo uma silhueta esguia, de corpo e gestos semelhantes. – Virá até mim com braços e pernas além do olhar? Não espero nada distinto, e aguardo frugalmente em meu lugar.
Fecha ela, devagar, a porta atrás de si, sem parecer querer pôr-nos à escuridão que se fez. Em silenciosos passos pára ao sopé do meu catre monástico e balbucia alguns pensamentos, como se fossem várias orações desconexas. Não procuro entender o que fala, pois logo me invade e inebria seu cheiro: carne tenra, pouquíssimo abatida pela idade ou força alheia. – O que te afliges, jovem, se tens medo por que vieste até mim? Penso enquanto a observo tremer e entrecortar ainda mais o fluxo das palavras. Se se lembrasse ela da antiga máxima “ora et labora”, poderia muito bem executar seus desígnios sem interromper a prece ou louvor que deixava cair dos lábios.
O tempo não era incômodo, porém as vísceras me queimavam por dentro num vir-a-ser de vontade e modorra. – Venha, minha filha! Digo, embora com nenhuma pressa, em minha quietude. E ela parece me escutar: termina o que clamava em baixo tom, abruptamente; respira rápido, como se quisesse estourar um ou os dois pulmões de uma vez, e me toca os pés de uma tal forma que por um instante não lhe revido no peito. Ato contínuo, arranca as peles que me cobriam em um frenesi incontrolável, atirando-as contra a parede como plumas. Meu corpo nu exposto, não obstante a pesada ausência de claridade circundante, afeta-lhe o ímpeto por um momento. Posso adivinhar, em sua mente afoita, que “não devia estar ali”, que intentar os rumos da tentação era pôr em perigo o próprio destino. Eu, que não movera um músculo até então, apreciava a tensão formada com certa gula: já estava demais abastado para desejar novamente a volúpia; no entanto, não poderia me esquivar daquele apelo.
            O interregno da ânsia diante da concupiscente visão esboça-lhe na face um tracejado onírico. Iluminado seu rosto pelo fogo a lhe consumir e untar toda em suor, recende agora qual rapina que se fez caça, indefesa e sem caminho de volta. Imóvel ela, alcanço-lhe com as mãos; subo seu vestido, já molhado por inteiro, e a deito bem calmamente sobre mim. Admiro estar sem roupas íntimas, pronta de antemão para o leito. Acolho-a como a um filhotinho assustado, que se mantém inerte por evitar imaginar o que lhe sobrevirá. Atina-me o prazer de desfrutar desta pureza infante, sem piedade ou compaixão. Ponho minha língua entre seus seios e com merecido carinho vou até o queixo abaulado. A respiração ofegante indica que está bem viva, santa e mártir apta para o sacrifício.
            Dispensado todo o léxico de mistura religiosa, mordo-lhe a boca à hora que perpasso suas costas com meus hábeis dedos. Firo-lhe os rins com as unhas, o que a faz esquecer a mudez estanque e soltar um silvo ardente, arrepiado, com saliva a escorrer pelo pescoço, o seu-meu pescoço, sem limites gráficos que mais nos separe. Sua penugem das nádegas, como veludo novo, amaina por segundos a violência volitiva que me tomava o ser. Viro-a então sobre a cama e beijo suas pernas levemente, com o crânio em direção ao púbis fugidio. Intocada ainda, sua vulva rósea me aguça o paladar e desperta a sede selvagem de fazer-lhe escorrer o sangue cálido da inocência errante. À mesma altura do horizonte nós dois, não há mais candura para titubear. – Allez-allez! E o som da minha voz cruza o ar como duplo disparo a queima-roupa, dolorido e mortal: recostado às janelas dos seus ouvidos, posso também escutar-lhe por dentro o romper do véu, a vontade em ato e potência consumada em êxtase e verdade.


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Um café com Adam Smith

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As prostitutas servem aos interesses gerais da economia e, logo, às demandas políticas de coesão social, na medida em que saciam as vontades daqueles indivíduos que não encontram meios ditos honrados de conquistar uma fêmea. Mas essas queridas putas também atendem aos indivíduos que, por uma razão ou outra, não se apaziguam com suas parceiras fixas e acabam buscando um episódio distinto para sentir prazer. Procurando-as, esses homens satisfazem o fim último do trabalho daquelas profissionais, sem sequer produzir ou explorar mais-valia alguma. A obtenção de dinheiro para que elas sobrevivam e arquem com os custos ostensivos do cotidiano se dá da forma mais livre possível, comparável ao equilíbrio dos mais finos empreendimentos do mercado. E, assim, vemos que ambas as partes, na procura própria da satisfação e gozo, agindo tão-somente em prol dos seus vícios e interesses privados, acabam por produzir o progresso da nação.


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quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Eno Nacional


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Singela homenagem à pátria brasileira. Diria que se trata de um razoável efervescente nacional. 

De uma velha parceria: Cristiano de Oliveira e Júlio Bonatti.

ENO NACIONAL
I

Ouviu desde a ciranda as fraudes clássicas
Um povo estóico: ó fado humilhante!
Em prol da propriedade, os latifúndios,
Brindou-se aos reis da prata e dos brilhantes.

“Sim Senhor!” – Quanta humildade.
Consentimos em ficar cantando o esporte;
E em teu meio, a desigualdade
Se procria desde o leito até a morte.

Ó pária atada
 embebedada
  Só o sal vos Salve!

Barril pesado, obeso e ressentido,
Da dor sem esperança que na terra cesse.
Sem o teu jocoso véu de engano frígido,
Na imagem o brasileiro aparece:

Uns grandes têm a posse da riqueza;
Com esmero outros tantos roem osso;
E que futuro espera essa pobreza?!

Terra assolada,
entre outras vis, eis tu, Brasis,
Ó frátria armada!

Aos quilos deste esmola e pão senil,
Parte em cada fuzil.


II
 
Sentados sempre em frente ao senso idêntico,
Do bom brilhar à luz do ecrã-mundo.
Fagulhas de um canil bufão da América
Classificado em rol bem lá no fundo.

De que terra, mal repartida,
Teus tristonhos filhos do campo terão flores?
Nos enfoques de quem fez vida,
A nossa vida veio a velhos dissabores.

Ó pária assada,
ensangüentada,
Só o sal vos Salve!

Brasil, torpor do inferno ou do limbo,
O Lázaro sustenta seus degolados.
Mendiga ao ventre louco desta fábula,
Traz pro futuro a estória do passado.

Mais serve a justiça à casta forte;
Tratas os filhos teus como os da puta
E esquece quem te implora à própria sorte.

Terra sitiada,
Entre outras mil eis tu no cio
Ó mátria achada!

Aos filhos deste a escória e mão servil,
Pátria: aguarda o Brasil.
 


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