quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Oblatum III

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Contei o tempo. Vi, nos olhos dela ali adormecida, o olhar das horas que se foram de uma vida afora. Era espaço curto a distância de nossas faces. Desejaria eu aproximar o que já se fora? Calcular o infindável lapso histórico transcorrido ao longo deste breve respirar inconstante dos meus anos foi suor empreendido de última importância, há pouco sem intenções além do animalesco deleite em farejar a presa infensa. Com efeito, quis mais do que esperar a apta consciência da linda caça se aflorar por sobre o sono e mesmo mais do que apenas medir por contar as unidades temporais que me cabiam. Fui obrigado a obrigá-la, assim,  restringindo qualquer paz como corolário possível. Aventava nesta enseada uma nova vez para esquecê-la; para esquecer-me - embora demasiado perto ambos.


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Preâmbulo da Dialética - III

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Friamente a me observar a Natureza emudecida. Dou dois passos e bem posso sentir seus olhos sobre mim, atentos como sentinelas de velhos tempos. Pergunto-me aonde são processadas, codificadas e acomodadas estas imagens novas que meu rápido movimento produz: haveria de fato um ontos totalizado da Natureza do qual me excluo porquanto outro? Não seria também eu natureza? Uma vez antagônicos já há tanto nos discursos, os comuns e os eruditos, seremos estranhos até a tarde em que, ela e nós, nos encontrarmos em espírito e matéria, em razão e sentidos – desfeita em sangue e ideias a dualística limítrofe que nos separa e empobrece a vida.


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segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Missivas IV

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Por bem é que a música finda, vez ou outra, não tendo ordenado ninguém. A melodia eivada em incompletude, aberta aos céus e aos deuses de quaisquer mundos, esconde um rol de acasos, de vindas e incertezas sensíveis. É a contragosto que, de abrupto, divisa-se sobrevir antes do fim uma vastidão que escapa: praia desabitada e impúbere a carecer de uma nota, um sinal que a delineie. Sob tua égide o trotar dessa ilusória cantiga célere, bordejo de versos crus assim caídos mais à beira do caminho que encontrados em seguros portos, se nos parece ritual ou prece, reza ou feitiço – acalanto sagrado em procela de arcaico ocultismo. Não é sem inebriante assombro que o que houve permanece, e ainda ouvimo-lo daqui, vendo-o em tuas mãos. Refinas a duras penas as arredias margens dessa escultura em relevo natural que se interpõe entre o início e o meio de uma simples clave de sol. Artífice de esmiuçado clamor, porquanto vão dispersas as chamas de sua criação, aguardas as cataratas de uma noite, vindoura ou mesmo histórica, trazendo em suas veias pintado um véu: alegórico telos, que em si não vela, mas a ti ilumina.


Um amicíssimo abraço do seu insano!


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Missivas III

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Avisto ao longe, como quem pela olfação enxerga, a mesa posta e repleta em singular abastança à espera. Cruzar este espraiado, firme ao rés do chão da estrada que ainda falta, atormenta-me e agrada: recostar os olhos sobre as mais belas celas do condado, que colorem os prados do quadro em torno, entretém minha alma enquanto o banquete repousa. Há tempos não saudava cada lebre, árvore e rama desta vereda talhada à mão em pleno matrimônio com a paisagem virginal. Somente no âmago daquilo que sabemos res cogitans posso acreditar na maravilha destas águas claras que escorrem pelas encostas densas e vales floridos, vistoso fio de lágrimas que se derrama de um alquímico cantil prateado. Em terras tais, contemplo terno a candura da vida que ainda vige e se mostra, que respira incólume a pureza a abundar nestas paragens distantes. Sei que, assim bucólico, a alta técnica e seus frutos beligerantes dispensa-se por obséquio habitual: não se espreita ou deseja aqui nada que exceda o fogo servil ao tabaco e às brasas. Súbito, recobro ávido os passos da viagem e toda simplória folha que me toca a face recende a arte do teu tempero... Olhe cá: se esta missiva te chegar à posse antes de eu vir a bater de fato à porta de tua morada, perdoe-me, pois não quis que se perdesse o crasso atraso de costume.


Um grande abraço do seu conviva!


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Missivas II

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Escrevo-te, não por escrever simplesmente, porém para assentar aqui um saudoso recuerdo dos tempos de antanho. A maré cheia, ora escassa visivelmente, traz em seu suor sódico o espectro da copiosa Armada que nos compôs e a compusemos nós. Prediríamos um dia sua ruína? Com efeito, tal glória viril demasiado estimada não poderíamos nós rompê-la em fluxo e vaidade. Recusas cá, entrevejo, a fatídica ampulheta, ali, a matar as horas – instantes que de então se nos vêm como ressaca de um Oceano em madeixas: insuspeito, não obstante culpado. As pedras, seixos, cascalhos, calhaus, cálculos, corais e lápides semi-eternas sedimentadas no colo destas águas serenas encerram em silêncio a história de nossos dias e incursões noturnas, quando o ímpeto das vozes que nos inflamava o espírito impunha sua vontade e dolo a águas outras, platô de silhuetas turvas e infames. Que não se olvide que outrora estivéramos bem, confortáveis muito embora o afã da espada desembainhada e dos canhões assinalados – e tudo à roda das benesses luxuriosas e da fartura bem-vinda a nós, comensais do erário. Quisera a confecção de calendários, eficaz em sua empreita, esboçar uma imagem sisuda do definhar de nossos braços e do vigor de nossas virtudes. Deixamos às favas aquela parceria de uma vez, à época de um Rio bonito, para hoje, recostados aos pés da velhice, admirarmos satisfeitos e vencidos a relva, as flores, os cactos e os carvalhos destes vastos campos – imensidão.


Um forte abraço do seu compatriota!


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sábado, 20 de agosto de 2011

Para uma Economia do Sagrado

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Contenta-me além do demasiado poder ler estas lapidares palavras do falecido Thorstein Veblen:

"Todos os povos, seja qual for a sua fase cultural ou grau de instrução, de bom grado exageram uma informação autêntica e sensivelmente escassa sobre a personalidade e o ambiente costumeiro de suas divindades. Invocando, por essa forma, o socorro da fantasia para enriquecer e preencher a imagem da divina presença e seu estilo de vida, imputam-lhe os traços que servirão para compor a imagem que fazem de um homem digno. E, ao procurarem entrar em comunhão com a divindade, os meios e modos de contato se assimilam o mais aproximadamente possível com os que possam ser o ideal divino que, na época, os homens tenham em mente. Sentem eles que a presença divina é conquistada de melhor grado e com melhor efeito mercê de certos métodos consagrados e com o acompanhamento de certas circunstâncias materiais que, na compreensão popular, se acham em peculiar consonância com a natureza divina." 


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quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Missivas - I

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De Luis Gustavo Cardoso, aos 28 de julho de 2011.


"O que me dará a filosofia, caro Júlio Bonatti? Corte afiado de carne sobre a mesa, extensão de onde o sangue perfila, como idéias que nascessem do acesso do sol sobre a terra, ou mulheres que gemessem, sinceras, o canto velho de suas antepassadas, bruxas desprezadas pelo tempo. Uma homilia, duas, séculos inteiros. De repente, não mais que isso, todas as pernas estão abertas, muita vez antepostas de quatro, e sinto no silêncio da censura exterior advir uma voz das arquibancadas infestadas de gente. Todos amarelos. Aprofunda-se mais o vazio de som e, muito ao invés de levantar-se um brasileiro qualquer e bradar de um jeito indignado “-Isto é inconstitucional!”, ergue-se a voz de um desses professores de cursinho, trajada pelo mote da televisão vespertina dos helicópteros sem destino, e então me diz, com ironia: “-Vai uma picanha?”. Por tudo, sobretudo, e apesar de tudo, meto na carne fresca e vermelha as caras. Embarafustado em sangue, impuro dirás, experimento alguma filosofia."

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De Júlio Bonatti, passado um dia.


Ah, caríssimo comparsa, a Velha Filosofia nunca pode nos oferecer no cardápio do seu adulado bistrô as iguarias que realmente buscamos: metafísica nenhuma se compara a um bom par daquilo que, de abrupto, nos salta aos olhos tão logo com elas nos deparamos, senhoras ou incautas senhoritas passantes. Já mui bem se ilustrou nossa teleologia com estes concisos versos esquecidos do século vindouro:

"Cear contigo
entre seios esparramados
nesta noite oblíqua
e farta que me vem,
faz-se há muito palatável,
minha jovem:
sabor escasso que,
de tempos em tempos,
ao meu desfrutar sobrevém."

Mandemos às favas o moralismo arcaico do gosto médio que insiste em criticar a higiene da feitura desse pastel que amiúde sustenta a verdadeira fome que herdamos da Natureza: somente sua rica gordura, que dá brilho ao bigode e escorre sem pudor pelo pescoço abaixo, de fato instrui os espíritos mais incansáveis. Afora isso, cabe salientar que em matéria de “constituição” sempre se entendeu miseravelmente pouco na terra desses sujeitinhos à qual diz respeito o gentílico por ti usado – que prefiro aqui não repetir. Apetece-lhes mesmo o libré do expectador, como dóceis cães e bons cordeiros às homilias e sermões ininterruptos, quer na igreja ou no sofá da sala. Quanto aos outros, aqueles que professam quaisquer verbetes e de prontidão ganham o distintivo público do pedestal, em grandes ou pequenos cursos, contento-me em deixá-los ao relento na proa improvisada da Stultifera Navis de nossos tempos, serenamente à deriva pelas vias fluviais desse sudeste arrogante. Diria que quanto mais escondem o frenesi íntimo, mais mostram os glúteos da vergonhosa hipocrisia que preferem nutrir. Diante de tanta picanha e tanta peçonha oferecidas ao ar livre em plenas matinês, reivindiquemos nós, donatiens de um mundo novo, o direito irrevogável e inquestionável de meter a cara, o dedo e os dentes naqueles aveludados lábios que se nos mostram por dentro das saias, justas e injustas, das renitentes raparigas recostadas às sombras dos frondosos jacarandás em flor, que destilam em lascívia púrpura o pão nosso de cada noite e dia.

Fica aqui a gratidão e um terno abraço do seu herege amigo.