quarta-feira, 27 de julho de 2011

Vaso antigo

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Ouço de longe seu brado animalesco. Irrita-me ter de aturar esse som recorrente, sempre o mesmo, interrompido apenas por uma semínima de poucos minutos em que a tensão da espera do próximo uivo me faz desejar ouvi-lo de novo e de novo. Pediria que se retirasse das minhas dependências, que fosse repousar o corpo enfermo noutro reduto, mas não: cabe a mim, por escolha autônoma de qualquer vontade, o ânimo adormecido de poder tê-la nos braços como antes, sem as chagas e penhores do tempo. Por certo minha razão não crê possível este devaneio, esta utopia, mas não cansa tampouco de se iludir, de entreter-se com isso para acompanhar o relógio e seus números. Temo que, nem sequer nas outras vidas que não há, ser-me-á dado, por justiça ou fado, vê-la como mulher, com seus órgãos todos a postos e o dia lá fora a aguardar nosso brilho.


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Ruptural

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Retive na memória não mais que por poucos segundos seu semblante prolixo e esgotado. As lacunas da minha retina, de ambos os globos oculares, foram adaptadas o bastante para apreender e dispensar essas suas cores, uma vez vistas. Alimentaria meu corpo todas as manhãs ao seu lado, em qualquer café de tais ruas sujas, sem que me lembrasse jamais dos seus traços cansados além do puro momento de encontro ocasional numa mesa, num balcão ou num espelho com as mãos molhadas. Da sua imagem desprezível sobra-me sempre e só o resto de vida, o tempo perdido – e o pó seco da jornada, aquela antiga jornada.


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– A domani!

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Estendi-lhes a mão para que não fosse um tapa na face, uma a uma. A paciência me vem sendo tamanha que ofereço de boa vontade, a quem quer que seja, um carneiro bem temperado aos domingos e feriados. Minha casa cheia, os olhares em encontro desviados de repente, cada sorriso a seu tom e meio tom. Nas últimas noites tenho sido piedoso com todos, não por benevolência ou algo do tipo que porventura esteja em meu caráter, mas para manter, como se pede, o bom e velho decoro do convívio.


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Ofício

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Escuto sua mente daqui. Não estamos de fato longe um do outro, mas bem sei que não saberia disso se não te dissesse claramente, e também o provasse. Queira evitar algum incômodo com tanto, pois não pretendo estender a outrem suas verdades ou frustrações. Apenas peço com educação, a despeito de a você nunca ter me dirigido antes, que pense mais baixo um pouquinho, porquanto está a atrapalhar e muito meu trabalho. Desde já, agradeço a atenção. Sem mais.


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Da natureza das coisas - I

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O vôo daquele inseto milagrosamente alado assemelha-se cada vez mais a um absurdo, um despropósito da natureza – mormente vendo-o de encontro insano ao vidro da parede branca, onde reflete a luz térmica da lâmpada que sustenta minha noite. Pelos ruídos de baque sei que mantêm ele a oscilação entre uma luz e outra, entre a cópia e a origem de sua sanha. Muito gostaria de poder ajudá-lo a encerrar de vez essa existência mísera que ele insiste involuntariamente em levar; mas, descrevê-lo daqui me consome num enfastiado cansaço, suficientemente maior do que qualquer apelo alheio... se de reles bicho ou gente, já tão pouco importa.


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Espírito-Matéria

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Suas técnicas de prazer parecem obedecer a um ritmo austero, impessoal, de controle meticulosamente mecânico dos gestos. É-me um paradoxo poder ainda sentir tudo isso de modo tão humano, carnal. O leve toque em cada parte do meu corpo, a cada instante do seu, modela uma imagem de cenas pensadas, ensaiadas há muito em outra de nossas épocas, que decerto nunca tivemos. Ante intentar o erro nessa esquivada arte com uma espécime de outrora ou doravante nos dias, apraz-me mais ao tino, desde em tuas pernas-engrenagens agora, o deleite na perfeita angulação e infalível razão deste ato.


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Permanências

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Teu fim, deitada nessa podridão alcoólica, não te leva a lugar qualquer. Se escapasses daí por si mesma para meu leito de vida, longe daqui, terias com efeito um bom outro ano adiante, talvez uma cria nos braços, no útero, nas ideias. Garantiria a nicotina de cada tarde por minha conta – cabendo sempre em meu contar, entendas, nada que exceda minha vontade. Seria possível tomarmos conhecimento de tudo, até mais do que isso, quem sabe. E eu cederia contigo à virtude dos vícios dispostos por bem entre os tortuosos sulcos de tuas narinas, sem carecer da passagem do tempo para esquecer dos dias.


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quinta-feira, 21 de julho de 2011

Eiva

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Retomada a redoma dos dias sob os cuidados proto-monásticos em um claustro comum, presta-se em memória por ocasião nova à glória nômade esquecida. Quando era preciso apenas um quantum de água para acalmar as cordas vocais, encontram-se todos agora nestes jardins tais, súditos da escolástica copiada e facilmente reproduzível em breves fórmulas. Muito se quis a ruína dessa parafernália toda, dos cálices aos prédios inteiros, porém ora vemos tamanha submissão oportuna, sustentados sabidamente eles em nada além das pedras e silhuetas divinas que distribuem pouco mais do que extratos, polpas e essências. Sabe-se que há um limiar de entrada adiante que, penso, talvez também sirva de eventual porta de adeus.


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quarta-feira, 20 de julho de 2011

Preâmbulo da Dialética - II

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Este espelho de costas reflete o fortuito ato da queda, ao passo que findo a busca em entreter-me de pé. Pesado qual defunto de muitos séculos embalsamado, atravesso o insólito solo de seixos e musgos, impróprio para o uso, mormente agora. Estirado aos poucos na sub-estrada, horizonte, que me ampara abaixo do normal nível urbano, recito de memória meus últimos versos de anteontem, a contemplar no escuro a outra face do meu semblante ali jogada com seus dentes descarrilados, empapados no sangue e na terra que me vêm de dentro. Sinto além o destino se formar menos nebuloso, partindo ao previsível sacrifício de qualquer coisa que talvez seja minha liberdade, ou o que sobrara dela.


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Preâmbulo da Dialética - I

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Quis desejar meus passos para ouvi-los ao longe. A ânsia de irrealidade me inebria as vistas e saliva na boca a provocar em volta um odor difícil de entender ou suportar, embora ao paladar seja demais aprazível. Assisto assim à derrocada da minha consciência, do logos de costume e de direito. A lucidez antes tão cara para mim, predileta entre as diletas do ego, ora cede lugar ao frenesi letárgico e impulsivo da química natural que me vem aos sentidos, sobrepuja a mente e põe a perder todo o resto.



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terça-feira, 19 de julho de 2011

Senda

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Deu-se o fim pelo princípio dos tempos. A veste suja e pesada, de escravidão recém alforriada, cobriu como véu os olhos da paisagem que a nós se mostrava. Nus, corremos por entre os cantos, no encalço das folhas tremeluzentes ao sabor do Sol, acima e embaixo de nossos pés. Cri no riso do espaço que era vida tirada dos restos mortos, sons quebrados da natureza desfeita e recriável. Enquanto fluxo, os contornos revoltos tornavam múltiplas as veredas adiante, sem um sequer momento para repensar cada passo. Íamos. O sal transpirado ardia o rosto, queimava as juntas e temperava a virilha para o sabor da noite. E via meu corpo se decompor qual alimento digerido em bile e ácido, isento de mais cerimônias orgânicas. Juntos, precisava eu de qualquer força alheia para dar cabo ao começo daquilo, desfecho dos meus braços e pernas dispersos no chão, caído o ontos em espírito e vontade sobre o nada irreal erguido assim, num instante.


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Da hybris

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Escusado seja o excesso. A raiva condensa-se em mim como pedra fática: unida ao mais puro álibi da materialidade em que a sinto, não posso chamá-la simplesmente um impulso de minhas vontades e deixo-a fluir sem controle ou punho que a estanque. E é na volta que faço ao cabo tormentário do livre-pensar, à procura e espera da sapiência que me olvida, que sinto cruamente o desejo insano da ira latente: a mistura e potenciação da sanha e da lucidez que me umedecem o paladar e alquebrantam os olhos fazem-se, então, mote e sentido. 

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terça-feira, 12 de julho de 2011

Oblatum - II

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Repares bem: tenho aqui à entrada de minha casa, diante dos meus rotos pés calçados, dois corpos violentamente desnudados, semi-mortos ao que parece. Toco-os com meu destro e os chuto com considerável força para ver se reagem: estão mortos de fato - ou é o que parece novamente. Muitos cães estavam famintos, provavelmente sedentos também, por estas redondezas ontem à noitinha. Certo é que estes dois aí, defuntos à segunda e à terceira vista, servirão a algo útil com suas respectivas carnes para além do cardápio de costume –  a nós animais, mais nos basta à fome e desejo suas carnes do que suas tantas vidas poupadas. Faz-se uma pena ter ficado tudo tão artificial: o temperar, o assar e a pantomima, do cortar ao engolir, mesmo para os cães que devorarão estes espécimes humanos.


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Oblatum - I

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Aguardo a sapiência de nossos mestres enquanto devoro um javali assado. Comer mecanicamente uma carne qualquer é desrespeitar-lhe a dignidade de ter sido vida, de ter-se escorrido sangue ao romper as amarras do coração à hora do abate. "Matei um ser vivo. Comi, ali no local do ato, toda aquela carne crua em seu próprio sangue e suor." Assim me recordo dos tempos primevos, daquela trivial infância dos homens. Hoje, pago em moedas reais a outros para que matem por mim: são os mesmos que abastecem com pães e vinhos os mercados sacros e profanos. Já aqui servido, longe do local e da cena do feito, mastigo com estes amarelados dentes as vísceras de um animal antigo e há tempos temperado e posto às mesas familiares.
Vejo que não aprecias a violência pretensa e desmesurada ao esbanjar aqui, eu, tantos requintes de frondosa barbárie para simplesmente narrar como encerro minha fome. Cuidas que não mato minha necessidade biológica como o próprio javali que degusto o fazia: vou adiante na busca de um senso estético, superior, que me distancia do ser que engulo precisamente no ato de trucidá-lo. É uma lástima que me desprezes por tão pouco; e, mais lastimável ainda é desrespeitar este rito festivo e alegre. Exalas em tuas crenças um odor doentio e digno de asco, tanto ou mais que a pior das tripas deste suíno que ora jaz em minhas entranhas.


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Da higiene

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Aspectos virais de um povo anêmico.
Vejo-os todos voltados
de costas para nós, intactos,
como se intenção não tivessem
de passar o limiar das linhas imaginárias
que bem além nos separam.
Espera-se, assim,
que não se propague o mal
aos urbanos centros recônditos,
mais que pelo mundo afora.


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Perícia

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E como tens passado uma vez trespassada a lança no peito? Vejo que a vista aludida à tua pessoa não sofre de quesitos dolosos: adiante os problemas dos que se dizem no mundo, ponderar a dor sofrível a um só ente é ser reles e vão. Porém, distinto não sendo da ignomínia vã e reles, amarro meu juízo à falácia tua em querer apregoar isso feito dor enquanto sacra marca, sinal infringido por céus e divinos prepostos. Agravado o instante por tua predita solução de auto-flagelo, redijo os papéis do óbito sem mais cerimônias: estás vivo ainda ou em bordúnico ato poderemos já acabar com esta pantomima?


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sexta-feira, 8 de julho de 2011

Yegua Salvaje

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Exalas ao vento,
de tão longe o sinto,
um aroma em ardor feromônico
que nestes meus úmidos lábios
cristalizam-se em mel, absinto.

Sei que nem os deuses etruscos
os sábios egípcios ou persas,
com todo magno poder que nos mostram,
conceberiam em vida teu busto
e estas ancas sublimes, intensas.

Fazes de ti malícia latente,
que inebria o viril olhar,
interrompe o normal curso da mente
e, na tua face de insuspeita candura,
educas o ímpeto de quem só te quer provar.


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Por um ósculo

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É tua boca
E não os teus olhos
É tua boca
E não teus cabelos
É tua boca – e só sua boca
Que te gera e desfaz
Que harmoniza tua face
Que a enfeita, disfarça.

– Seria tu, Doutora,
Deveras uma mulher,
Ou, escondido, de Monalisa,
Somente um sorriso?


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Certos aspectos

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No relógio de impulso 
vejo assomar uma hora tardia. 
Paro a respiração por completo 
e intento o normal fluxo da natureza, 
sem mais esperançar outro mundo. 
Dou, agora, 
apenas um sentido para sua vida: 
sinto muito.


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Pintura a guache



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Embebido no próprio sangue vejo morrer tão próximo este ser alvo e singelo. Não assoma por certo idade avançada – pouca vivência em um semblante tracejado de fina candura. Pudesse cuidá-lo, preservar-lhe a morte tênue, guardaria este corpo exangue entre as caras relíquias dos homens. Não obstante banhada nas rubras águas de suas veias e as vísceras expostas às vistas, contemplar ali a vida desfeita, olhá-la nos olhos fechados, desvelava em mim uma volúpia candente e terna, impulso de dupla vontade que não se sabe e menos se espera.

Um instante insondável apenas e o ar que nos punha iguais crava agora o limiar que distingue dois mundos. A respiração que fica, entre restos a recender pétalas intumescidas, revela incomparável leveza e serenidade: a violenta partida, sem prévias quaisquer, fazia-se menor, adereço discreto ante a beleza da imagem disposta. A mão esquerda, pálida, erguida com esmero à altura do tórax que sustento, dava-se por vencida, encobrindo em inaudível sinal a força e dom que um dia talvez nutrira. Sua cabeça, pesada em meus braços, amparava-me mais do que eu a ela – e era confuso intentar envolvê-la, aquecer-lhe do frio latente que em breve lhe preencheria toda, por fora e adentro.

Conforta-me estar de joelhos, poder tocar por completo a disforme figura estirada neste chão-asfalto. Quis entender a razão de suas extremidades corpóreas manterem-se intactas: o tronco esfacelado pelo impacto parecia ter absorvido a destruição na sua totalidade, sustentando distante de máculas mormente o rosto jovial. Ela, tornada fato consumado, a cada novo feixe de luz do Sol a pino, mostrava-se quadro feito com delicado pincel, fruto ideal de algum renomado artista de outrora, invocado tão somente para ver sacrificada sua obra ao acaso.

Antevejo o pulsar coletivo que o momento aflora e recobro o tino. Está ela imóvel aqui, diante de tudo; meu sopro cálido e úmido é o único espírito possível àquelas narinas. Não almejo poupar-lhe o fim, que já sem volta se fez. Resguardo, porém, prover um desfecho digno que justifique o primado de nossa existência perante o nada de um ato fortuito. Seria eu a causa mortis de quem ainda há pouco em pleno impulso vital decerto corria, cantava, amava e sentia? Caberia a mim, na ordem harmônica do curso natural das coisas, o libré de algoz? Protagonista eu de um enredo espelhado de triste sina?

O tempo escasso comparado à turba faminta respondeu-me depressa, sem metafísica. Mas não podia, por bem, abandonar a pobre moça, deixá-la à mercê das intempéries e normas urbanas. Relutante em soltar-lhe, ambos ali deitados na própria agonia e carne, éramos um mesmo dracma de efígies opostas, cunhado no calor de um desvario. E o som rompante a rasgar o vento, anunciando a vinda das autoridades locais, torceu-me o estômago e os pulmões frearam: não bastava o fardo de um assassínio sobre os ombros, teria ainda de engolir minha crassa impotência e aceitar a verdade de uma justiça sem qualquer senso estético.



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