segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Politeia

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Tenho do espectro o espírito e sua sacralidade profana, da política dos altares me escapando somente a pólis. Reconheço entre rostos cobertos a igualdade dos meus párias, pareados na lida diária do trabalho imaginário em concretude. Empresto-lhes a comoção pública em duas ou três vias impressas, para que não falte legalidade às legítimas marchas suas, nas idas e vindas da ignara turba dos falidos. Redijo de bom grado a pauta dos discursos magnos no idioma tido oficial, sem que a assinatura me pese ao caráter e vaidade. A lavratura das atas demandadas às sucursais competentes e nos autos manuais incluídas outrora faço-a ainda agora, em ritual incomparável aos tempos arcaicos quando dos instrumentos fálicos da pena industrial. Era-me repugnante ter de abortar as trincheiras para vestir os librés da urbanidade pacífica; sentia-me imprestável qual pedra de rio levada pelo fluxo eterno das águas. Mas de ora ao momento, não: embora passível de morte e equívocos similares, meu pendor decisório travou-se no decurso das coisas, firmou-se na engrenagem sistêmica e sintética da dialética ativa à qual me presto. O que me ocorria ao inconsciente, centenas de dias por ano, então passou do mundo feérico da onírica arte ao redobrado estilo verossímil do nosso andrajo atual. Mal-trajados e maltratados, pensamos estar a caminho de um futurístico amanhã, infenso e prático nos tratados naturais de direito dos povos e das suas gentes demasiado díspares. Sou tanto mais indivíduo, livre e apto à vida em contínua reprodução, quanto ao máximo intento projetar os liames desse pacto recusado, pleiteado em segredo e propagado entre arestas e parênteses indecomponíveis de passados revolucionários. E tomo-me pelo presente a encampar este mote, este fito e fardo sem meados no fim que justifiquem o mínimo moralismo dos meios. Veia e artéria de um processo, extingue-se em incompletude essa práxis sedimentada geográfica e ludicamente, repintada outras vezes ao sabor, ao gosto da inércia pobre e miserável das massas constitucionais. Tendo estado dentro e vindo de fora, recobro toda a pantomima do modus operandi dessas multidões e vendo minha mais-valia abaixo do preço científica e socialmente teorizado: a partida sai sem rumos certos, em busca de um invento perdido, de redutos calmos e confortáveis para à sombra crepuscular repousar a cabeça entre os dedos calejados das minhas mãos invisíveis.


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terça-feira, 25 de outubro de 2011

Pequeno Tratado da Noção - II

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É de se esperar que, ainda que de fato se espere, não há muito de certeiro nos atos esperançosos: trabalhamos com conjecturas que se realizam numa perspectiva estatística, de altas ou baixas probabilidades. Extrapolar os meios reais do possível, que encontramos na estipulação de certos critérios de probabilidade, é crer na sorte, em algo sobrenatural qualquer. Os juízos que se pautam nesta delimitação antropomórfica ou mesmo que se relacionam com outra área de observâncias devotas, de fé e misticismo, são, com efeito, descartáveis pela ciência fina por seu teor inventivo, socialmente construído e historicamente explicável.
A estrutura do nosso mundo, ou seja, do universo lingüístico sobre o qual edificamos nosso mundo, deve tender ao maximalismo atingível pela lógica empírica: que, não obstante também discurso e linguagem elaborada nos meios sensíveis da representação, tem uma fixidez no real, na objetividade crua e não nos pré-julgamentos religiosos, culturais ou do tipo. – E o fator ludens dessas discussões pretensiosamente epistemológicas reside no ponto nevrálgico de que não se é convencido jamais por elas, apetecendo-se até mais do que o normal o gosto e o prazer por aquelas orações vespertinas perante um ídolo escrupuloso de sempre: antigo, velho, arcaico, obsoleto ou, quiçá, infante.
 


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Espermas da Enésima Arte: Magritte

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Um esturjão pousou-me no ombro, e gracejou-se de mim. Contei-lhe baixinho as histórias das noites mil e das belezas do nosso país – o que nos rendeu um bom proveito do tempo. Passados os casos num acaso sem rumos de volta, senti pesar-me à força o peso real daquele animal, que de peixe não garantia mais do que o nome. Indaguei-lhe as razões da contradição aparente, da forma entranhada em substância outra: um ser alado tomado por espécie das águas – mas não se pode saber de tanto, sabendo-se que tantas arestas da lógica nos escapam; e punha tudo a perder nessa questão, uma e duas vezes perdido o entendimento. Obtive um batistério como resposta, no máximo da sua mínima atenção. Inconformado com a necessidade identitária provinda dos meus intentos mais ingênuos e viciados, voou de volta o esturjão, envolto em rancor e asco diante dos fatos.



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Às cegas

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Vai-se em sujos traços,
Por entre frestas de escassa luz,
A dúbia cor que ainda vejo
Do estertor do teu olhar.

Rompe-se em claro estalo
Ao findar da silhueta errante
A tenra imagem-lucidez
Que dos trajes teus eram reais.

De um aqui tão próximo
Faz-te então outra, distante.
E, dos sentidos já não posso,
Perceber de ti coisa qualquer.

À consciência um crasso fardo,
À mente inteira uma prisão:
Ao ver-te por não vê-la,
Em torpor exangue de cegueira
Sou eu ausência apenas, solidão.


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terça-feira, 11 de outubro de 2011

Metafísicas do "ethos" - I

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Apanhei ao acaso em uma antiga biblioteca o fatídico Livro dos Juízos. À primeira impressão não obtive amparo elucidativo para entender a temporalidade do que se grafava ali como “juízos”: se eram os do princípio, os do final ou aqueles dos dias de intermédio. Penetrando superficialmente suas páginas, num ato lógico de leitura contraditória, descobri o que não se podia querer, uma vez contingentes a fonte e a vontade de saber: foi descoberto por mim que os “juízos”, todos eles, eram na verdade estórias da infância – e de uma inocência na criação de suas fábulas e metáforas que qualquer pessoa que na vida brincara de faz-de-conta podia compreender de antemão, candidamente velada, a moral da história.



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sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Pequeno Tratado da Noção - I

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O problema das soluções problemáticas está no fato de serem elas a conjunção de uma miríade de objetos e questões sempre novas, ou seja: na formulação de outros problemas nascentes que reclamam sua aquiescência e legitimidade sócio-epistemológica. Ainda encontramos as diatribes do tempo para impedir o entendimento mútuo à primeira mão, ou, para ser mais latinamente frontal na descrição, à primeira face. Nossas boulai de hoje não funcionam à base silogístico-democrática como as de antanho, quando os probouleuma não passavam de problemas dos helenos: seu povo, sua nobreza, seus escravos, seus estrangeiros, bem como outras peculiaridades que a história olvidou.
A linguagem deste tempo diuturnamente vivido por vós e, salvo engano, por nós, a despeito de ser em igual silogisticamente estruturada, prescinde de certos preciosismos da fala e cria pontos discutíveis a cada momento mais recentes, dificilmente imagináveis pelos solucionadores de problemas que ocupavam assentos da Pnyx. O paradigma gnosiológico que se apresenta em um texto dessa estirpe, faça-se o exemplo que apresento, deveria nos intrigar tanto quanto intrigara o sâmio Pitágoras a existencial possibilidade do número irracional, posto que digno de ser um problema que antecede/ultrapassa as instâncias da democracia clistenesiana e suas sucessoras. E, pergunta-se, à guisa de indagação afirmativa, a constar a racionalidade de um mundo assim virtualizado, não se dissocia ela por qualquer virtude de consistência própria da irracionalidade frugal de uma raiz quadrada de dois.



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segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Partida do Porto

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Paro perante a ponte.
Pondero se é possível,
prudente ou plausível,
a possibilidade
de peripatear por ela
e penetrá-la as profundezas.
Pudera e posso placidamente
passear pelos palacianos pátios
e pedregosas pradarias próximas.
Porém, para o presente,
pois em que pese à paciência,
prescindo dos provérbios passados:
procrastinado pouco a pouco,
pintado em palavras, pensamento,
é o penhor da Parca que preciso pagar.
Porquanto pularia de prontidão,
pontuo prolixamente a paisagem,
pregado o parapeito ao peito,
e pressinto em potência e pathos.
Parto.


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Paródias da Criação - I

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Não é preciso dizer muito para tratar de pouca coisa. Os fatos constam por si, a despeito da crua reinvenção da carne que deles se alimenta.


E Deus, em meio a todas as suas impossibilidades metafísicas, tinha na própria virgindade a razão magna do seu sofrimento. Já escrito e acabado o livro de História desta simplória eternidade, e pressupondo-se saber ele de cabo ao fim cada uma de suas laudas, tal escolha determinante da própria intransponível abstenção sexual, por certo mal calculada no tempo zero, rendeu-lhe a úlcera que tanto se oculta nas linhas criminais paralelas da vida neste mundo.



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Banquisa

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Despejei aquele fôlego seco sobre o monturo inebriante do meu corpo. Ajoelhado em reverência ao vácuo refletido, juntei as mãos e premeditei uma graça forçada, fingida em pequenos flocos de antigas fórmulas oracionais. Cedi por alguns segundos ante a ânsia insaciável daquele devir azul quebradiço e entretive minha consciência com o pouco mais do que nada à frente dos dentes desta boca, a que possuo e integra meu rosto em sinal de humanidade. Ingerindo o líquido necessário para suprir a fraqueza dos músculos e a gula áspera da garganta, enchi calmamente a mesma ânfora de sempre dos nossos antepassados mortos – estes com seus ossos de um tempo, amolecidos e imprestáveis, debaixo agora de qualquer terra crescida, eles e suas histórias.


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terça-feira, 13 de setembro de 2011

Descanso

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Restava o solo da sua casa, umedecido e difuso. Repousei então as costas, e com elas foi tudo o que sobrava do corpo – a cabeça e a palma das mãos relutantes um pouco. Ao cabo de alguns minutos incontados, somando-se a rápida caída do tempo sob efeitos noturnais, vi-me sem forças acabado ali, sem os escrúpulos da infância para falar qualquer coisa. A urina presa já anestesiava seu respectivo órgão de contenção com o excesso alcoólico que os rins filtraram diligentemente – e, por não apontar nada na saída, percebia adormecer toda a região do púbis, bem como a genitália, esta que ocupava uma função subalterna nesta ordem dos fatos. Tentei com nenhum sucesso, duplamente em vão, erguer-me dali: a potência estava distante dos meus atos e músculos, já desperdiçada nos braços de uma deplorável, desprezível e perdida na vida que não servia nem para limpar a josta de algum reles animal da urbs. Todavia o anti-desejo, desisti; deixei minha forma e substância esparramadas naquele espaço abjeto, a saúde de anos e mais anos de cevada e mel – eu, que nada tivera com a extravagância além da hybris da psique.


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sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Raskólnikov revisitado - I

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Este dinheiro em pouca quantia é de certa via o necessário. Está ao meu lado a velha que desejei morta outro dia, e ainda hoje – ser imprestável a ocupar um lugar, por viver ao haver um sistema previdenciário público e todas as suas parafernálias patrimonialistas, além de tantas outras benesses herdadas do justíssimo tempo. O meio de transporte em movimento: era de meu interesse jogá-la pelo meio da janela para que caísse lá bem no meio da rua, cada meio por sua vez. Anseios à parte, tateio novamente o dinheiro que sabia de casa tratar-se da conta exata – contudo, de um cálculo em essência equivocado. Precisava mesmo era de um espaço folgado entre o ganhar o salário e o ter de gastá-lo com qualquer obrigação. Sustentar os bolsos repletos ou vazios fazia-se questão importante de se pensar; mas não ali, a ladear aquele desprezível espécime humano enquanto imagens passam à volta e não se chega a nada.


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Alethéia

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Aquela porta que se abre encerra um sono denso, envolto em felpudas colchas à sombra da apagada luz de uma noite. A cruzar o limiar que me separa do mundo, aqui nesta alcova antiga, antevejo uma silhueta esguia, de corpo e gestos semelhantes. – Virá até mim com braços e pernas além do olhar? Não espero nada distinto, e aguardo frugalmente em meu lugar.
Fecha ela, devagar, a porta atrás de si, sem parecer querer pôr-nos à escuridão que se fez. Em silenciosos passos pára ao sopé do meu catre monástico e balbucia alguns pensamentos, como se fossem várias orações desconexas. Não procuro entender o que fala, pois logo me invade e inebria seu cheiro: carne tenra, pouquíssimo abatida pela idade ou força alheia. – O que te afliges, jovem, se tens medo por que vieste até mim? Penso enquanto a observo tremer e entrecortar ainda mais o fluxo das palavras. Se se lembrasse ela da antiga máxima “ora et labora”, poderia muito bem executar seus desígnios sem interromper a prece ou louvor que deixava cair dos lábios.
O tempo não era incômodo, porém as vísceras me queimavam por dentro num vir-a-ser de vontade e modorra. – Venha, minha filha! Digo, embora com nenhuma pressa, em minha quietude. E ela parece me escutar: termina o que clamava em baixo tom, abruptamente; respira rápido, como se quisesse estourar um ou os dois pulmões de uma vez, e me toca os pés de uma tal forma que por um instante não lhe revido no peito. Ato contínuo, arranca as peles que me cobriam em um frenesi incontrolável, atirando-as contra a parede como plumas. Meu corpo nu exposto, não obstante a pesada ausência de claridade circundante, afeta-lhe o ímpeto por um momento. Posso adivinhar, em sua mente afoita, que “não devia estar ali”, que intentar os rumos da tentação era pôr em perigo o próprio destino. Eu, que não movera um músculo até então, apreciava a tensão formada com certa gula: já estava demais abastado para desejar novamente a volúpia; no entanto, não poderia me esquivar daquele apelo.
            O interregno da ânsia diante da concupiscente visão esboça-lhe na face um tracejado onírico. Iluminado seu rosto pelo fogo a lhe consumir e untar toda em suor, recende agora qual rapina que se fez caça, indefesa e sem caminho de volta. Imóvel ela, alcanço-lhe com as mãos; subo seu vestido, já molhado por inteiro, e a deito bem calmamente sobre mim. Admiro estar sem roupas íntimas, pronta de antemão para o leito. Acolho-a como a um filhotinho assustado, que se mantém inerte por evitar imaginar o que lhe sobrevirá. Atina-me o prazer de desfrutar desta pureza infante, sem piedade ou compaixão. Ponho minha língua entre seus seios e com merecido carinho vou até o queixo abaulado. A respiração ofegante indica que está bem viva, santa e mártir apta para o sacrifício.
            Dispensado todo o léxico de mistura religiosa, mordo-lhe a boca à hora que perpasso suas costas com meus hábeis dedos. Firo-lhe os rins com as unhas, o que a faz esquecer a mudez estanque e soltar um silvo ardente, arrepiado, com saliva a escorrer pelo pescoço, o seu-meu pescoço, sem limites gráficos que mais nos separe. Sua penugem das nádegas, como veludo novo, amaina por segundos a violência volitiva que me tomava o ser. Viro-a então sobre a cama e beijo suas pernas levemente, com o crânio em direção ao púbis fugidio. Intocada ainda, sua vulva rósea me aguça o paladar e desperta a sede selvagem de fazer-lhe escorrer o sangue cálido da inocência errante. À mesma altura do horizonte nós dois, não há mais candura para titubear. – Allez-allez! E o som da minha voz cruza o ar como duplo disparo a queima-roupa, dolorido e mortal: recostado às janelas dos seus ouvidos, posso também escutar-lhe por dentro o romper do véu, a vontade em ato e potência consumada em êxtase e verdade.


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Um café com Adam Smith

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As prostitutas servem aos interesses gerais da economia e, logo, às demandas políticas de coesão social, na medida em que saciam as vontades daqueles indivíduos que não encontram meios ditos honrados de conquistar uma fêmea. Mas essas queridas putas também atendem aos indivíduos que, por uma razão ou outra, não se apaziguam com suas parceiras fixas e acabam buscando um episódio distinto para sentir prazer. Procurando-as, esses homens satisfazem o fim último do trabalho daquelas profissionais, sem sequer produzir ou explorar mais-valia alguma. A obtenção de dinheiro para que elas sobrevivam e arquem com os custos ostensivos do cotidiano se dá da forma mais livre possível, comparável ao equilíbrio dos mais finos empreendimentos do mercado. E, assim, vemos que ambas as partes, na procura própria da satisfação e gozo, agindo tão-somente em prol dos seus vícios e interesses privados, acabam por produzir o progresso da nação.


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quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Eno Nacional


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Singela homenagem à pátria brasileira. Diria que se trata de um razoável efervescente nacional. 

De uma velha parceria: Cristiano de Oliveira e Júlio Bonatti.

ENO NACIONAL
I

Ouviu desde a ciranda as fraudes clássicas
Um povo estóico: ó fado humilhante!
Em prol da propriedade, os latifúndios,
Brindou-se aos reis da prata e dos brilhantes.

“Sim Senhor!” – Quanta humildade.
Consentimos em ficar cantando o esporte;
E em teu meio, a desigualdade
Se procria desde o leito até a morte.

Ó pária atada
 embebedada
  Só o sal vos Salve!

Barril pesado, obeso e ressentido,
Da dor sem esperança que na terra cesse.
Sem o teu jocoso véu de engano frígido,
Na imagem o brasileiro aparece:

Uns grandes têm a posse da riqueza;
Com esmero outros tantos roem osso;
E que futuro espera essa pobreza?!

Terra assolada,
entre outras vis, eis tu, Brasis,
Ó frátria armada!

Aos quilos deste esmola e pão senil,
Parte em cada fuzil.


II
 
Sentados sempre em frente ao senso idêntico,
Do bom brilhar à luz do ecrã-mundo.
Fagulhas de um canil bufão da América
Classificado em rol bem lá no fundo.

De que terra, mal repartida,
Teus tristonhos filhos do campo terão flores?
Nos enfoques de quem fez vida,
A nossa vida veio a velhos dissabores.

Ó pária assada,
ensangüentada,
Só o sal vos Salve!

Brasil, torpor do inferno ou do limbo,
O Lázaro sustenta seus degolados.
Mendiga ao ventre louco desta fábula,
Traz pro futuro a estória do passado.

Mais serve a justiça à casta forte;
Tratas os filhos teus como os da puta
E esquece quem te implora à própria sorte.

Terra sitiada,
Entre outras mil eis tu no cio
Ó mátria achada!

Aos filhos deste a escória e mão servil,
Pátria: aguarda o Brasil.
 


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quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Oblatum III

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Contei o tempo. Vi, nos olhos dela ali adormecida, o olhar das horas que se foram de uma vida afora. Era espaço curto a distância de nossas faces. Desejaria eu aproximar o que já se fora? Calcular o infindável lapso histórico transcorrido ao longo deste breve respirar inconstante dos meus anos foi suor empreendido de última importância, há pouco sem intenções além do animalesco deleite em farejar a presa infensa. Com efeito, quis mais do que esperar a apta consciência da linda caça se aflorar por sobre o sono e mesmo mais do que apenas medir por contar as unidades temporais que me cabiam. Fui obrigado a obrigá-la, assim,  restringindo qualquer paz como corolário possível. Aventava nesta enseada uma nova vez para esquecê-la; para esquecer-me - embora demasiado perto ambos.


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Preâmbulo da Dialética - III

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Friamente a me observar a Natureza emudecida. Dou dois passos e bem posso sentir seus olhos sobre mim, atentos como sentinelas de velhos tempos. Pergunto-me aonde são processadas, codificadas e acomodadas estas imagens novas que meu rápido movimento produz: haveria de fato um ontos totalizado da Natureza do qual me excluo porquanto outro? Não seria também eu natureza? Uma vez antagônicos já há tanto nos discursos, os comuns e os eruditos, seremos estranhos até a tarde em que, ela e nós, nos encontrarmos em espírito e matéria, em razão e sentidos – desfeita em sangue e ideias a dualística limítrofe que nos separa e empobrece a vida.


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segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Missivas IV

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Por bem é que a música finda, vez ou outra, não tendo ordenado ninguém. A melodia eivada em incompletude, aberta aos céus e aos deuses de quaisquer mundos, esconde um rol de acasos, de vindas e incertezas sensíveis. É a contragosto que, de abrupto, divisa-se sobrevir antes do fim uma vastidão que escapa: praia desabitada e impúbere a carecer de uma nota, um sinal que a delineie. Sob tua égide o trotar dessa ilusória cantiga célere, bordejo de versos crus assim caídos mais à beira do caminho que encontrados em seguros portos, se nos parece ritual ou prece, reza ou feitiço – acalanto sagrado em procela de arcaico ocultismo. Não é sem inebriante assombro que o que houve permanece, e ainda ouvimo-lo daqui, vendo-o em tuas mãos. Refinas a duras penas as arredias margens dessa escultura em relevo natural que se interpõe entre o início e o meio de uma simples clave de sol. Artífice de esmiuçado clamor, porquanto vão dispersas as chamas de sua criação, aguardas as cataratas de uma noite, vindoura ou mesmo histórica, trazendo em suas veias pintado um véu: alegórico telos, que em si não vela, mas a ti ilumina.


Um amicíssimo abraço do seu insano!


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Missivas III

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Avisto ao longe, como quem pela olfação enxerga, a mesa posta e repleta em singular abastança à espera. Cruzar este espraiado, firme ao rés do chão da estrada que ainda falta, atormenta-me e agrada: recostar os olhos sobre as mais belas celas do condado, que colorem os prados do quadro em torno, entretém minha alma enquanto o banquete repousa. Há tempos não saudava cada lebre, árvore e rama desta vereda talhada à mão em pleno matrimônio com a paisagem virginal. Somente no âmago daquilo que sabemos res cogitans posso acreditar na maravilha destas águas claras que escorrem pelas encostas densas e vales floridos, vistoso fio de lágrimas que se derrama de um alquímico cantil prateado. Em terras tais, contemplo terno a candura da vida que ainda vige e se mostra, que respira incólume a pureza a abundar nestas paragens distantes. Sei que, assim bucólico, a alta técnica e seus frutos beligerantes dispensa-se por obséquio habitual: não se espreita ou deseja aqui nada que exceda o fogo servil ao tabaco e às brasas. Súbito, recobro ávido os passos da viagem e toda simplória folha que me toca a face recende a arte do teu tempero... Olhe cá: se esta missiva te chegar à posse antes de eu vir a bater de fato à porta de tua morada, perdoe-me, pois não quis que se perdesse o crasso atraso de costume.


Um grande abraço do seu conviva!


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Missivas II

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Escrevo-te, não por escrever simplesmente, porém para assentar aqui um saudoso recuerdo dos tempos de antanho. A maré cheia, ora escassa visivelmente, traz em seu suor sódico o espectro da copiosa Armada que nos compôs e a compusemos nós. Prediríamos um dia sua ruína? Com efeito, tal glória viril demasiado estimada não poderíamos nós rompê-la em fluxo e vaidade. Recusas cá, entrevejo, a fatídica ampulheta, ali, a matar as horas – instantes que de então se nos vêm como ressaca de um Oceano em madeixas: insuspeito, não obstante culpado. As pedras, seixos, cascalhos, calhaus, cálculos, corais e lápides semi-eternas sedimentadas no colo destas águas serenas encerram em silêncio a história de nossos dias e incursões noturnas, quando o ímpeto das vozes que nos inflamava o espírito impunha sua vontade e dolo a águas outras, platô de silhuetas turvas e infames. Que não se olvide que outrora estivéramos bem, confortáveis muito embora o afã da espada desembainhada e dos canhões assinalados – e tudo à roda das benesses luxuriosas e da fartura bem-vinda a nós, comensais do erário. Quisera a confecção de calendários, eficaz em sua empreita, esboçar uma imagem sisuda do definhar de nossos braços e do vigor de nossas virtudes. Deixamos às favas aquela parceria de uma vez, à época de um Rio bonito, para hoje, recostados aos pés da velhice, admirarmos satisfeitos e vencidos a relva, as flores, os cactos e os carvalhos destes vastos campos – imensidão.


Um forte abraço do seu compatriota!


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sábado, 20 de agosto de 2011

Para uma Economia do Sagrado

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Contenta-me além do demasiado poder ler estas lapidares palavras do falecido Thorstein Veblen:

"Todos os povos, seja qual for a sua fase cultural ou grau de instrução, de bom grado exageram uma informação autêntica e sensivelmente escassa sobre a personalidade e o ambiente costumeiro de suas divindades. Invocando, por essa forma, o socorro da fantasia para enriquecer e preencher a imagem da divina presença e seu estilo de vida, imputam-lhe os traços que servirão para compor a imagem que fazem de um homem digno. E, ao procurarem entrar em comunhão com a divindade, os meios e modos de contato se assimilam o mais aproximadamente possível com os que possam ser o ideal divino que, na época, os homens tenham em mente. Sentem eles que a presença divina é conquistada de melhor grado e com melhor efeito mercê de certos métodos consagrados e com o acompanhamento de certas circunstâncias materiais que, na compreensão popular, se acham em peculiar consonância com a natureza divina." 


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quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Missivas - I

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De Luis Gustavo Cardoso, aos 28 de julho de 2011.


"O que me dará a filosofia, caro Júlio Bonatti? Corte afiado de carne sobre a mesa, extensão de onde o sangue perfila, como idéias que nascessem do acesso do sol sobre a terra, ou mulheres que gemessem, sinceras, o canto velho de suas antepassadas, bruxas desprezadas pelo tempo. Uma homilia, duas, séculos inteiros. De repente, não mais que isso, todas as pernas estão abertas, muita vez antepostas de quatro, e sinto no silêncio da censura exterior advir uma voz das arquibancadas infestadas de gente. Todos amarelos. Aprofunda-se mais o vazio de som e, muito ao invés de levantar-se um brasileiro qualquer e bradar de um jeito indignado “-Isto é inconstitucional!”, ergue-se a voz de um desses professores de cursinho, trajada pelo mote da televisão vespertina dos helicópteros sem destino, e então me diz, com ironia: “-Vai uma picanha?”. Por tudo, sobretudo, e apesar de tudo, meto na carne fresca e vermelha as caras. Embarafustado em sangue, impuro dirás, experimento alguma filosofia."

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De Júlio Bonatti, passado um dia.


Ah, caríssimo comparsa, a Velha Filosofia nunca pode nos oferecer no cardápio do seu adulado bistrô as iguarias que realmente buscamos: metafísica nenhuma se compara a um bom par daquilo que, de abrupto, nos salta aos olhos tão logo com elas nos deparamos, senhoras ou incautas senhoritas passantes. Já mui bem se ilustrou nossa teleologia com estes concisos versos esquecidos do século vindouro:

"Cear contigo
entre seios esparramados
nesta noite oblíqua
e farta que me vem,
faz-se há muito palatável,
minha jovem:
sabor escasso que,
de tempos em tempos,
ao meu desfrutar sobrevém."

Mandemos às favas o moralismo arcaico do gosto médio que insiste em criticar a higiene da feitura desse pastel que amiúde sustenta a verdadeira fome que herdamos da Natureza: somente sua rica gordura, que dá brilho ao bigode e escorre sem pudor pelo pescoço abaixo, de fato instrui os espíritos mais incansáveis. Afora isso, cabe salientar que em matéria de “constituição” sempre se entendeu miseravelmente pouco na terra desses sujeitinhos à qual diz respeito o gentílico por ti usado – que prefiro aqui não repetir. Apetece-lhes mesmo o libré do expectador, como dóceis cães e bons cordeiros às homilias e sermões ininterruptos, quer na igreja ou no sofá da sala. Quanto aos outros, aqueles que professam quaisquer verbetes e de prontidão ganham o distintivo público do pedestal, em grandes ou pequenos cursos, contento-me em deixá-los ao relento na proa improvisada da Stultifera Navis de nossos tempos, serenamente à deriva pelas vias fluviais desse sudeste arrogante. Diria que quanto mais escondem o frenesi íntimo, mais mostram os glúteos da vergonhosa hipocrisia que preferem nutrir. Diante de tanta picanha e tanta peçonha oferecidas ao ar livre em plenas matinês, reivindiquemos nós, donatiens de um mundo novo, o direito irrevogável e inquestionável de meter a cara, o dedo e os dentes naqueles aveludados lábios que se nos mostram por dentro das saias, justas e injustas, das renitentes raparigas recostadas às sombras dos frondosos jacarandás em flor, que destilam em lascívia púrpura o pão nosso de cada noite e dia.

Fica aqui a gratidão e um terno abraço do seu herege amigo.


quarta-feira, 27 de julho de 2011

Vaso antigo

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Ouço de longe seu brado animalesco. Irrita-me ter de aturar esse som recorrente, sempre o mesmo, interrompido apenas por uma semínima de poucos minutos em que a tensão da espera do próximo uivo me faz desejar ouvi-lo de novo e de novo. Pediria que se retirasse das minhas dependências, que fosse repousar o corpo enfermo noutro reduto, mas não: cabe a mim, por escolha autônoma de qualquer vontade, o ânimo adormecido de poder tê-la nos braços como antes, sem as chagas e penhores do tempo. Por certo minha razão não crê possível este devaneio, esta utopia, mas não cansa tampouco de se iludir, de entreter-se com isso para acompanhar o relógio e seus números. Temo que, nem sequer nas outras vidas que não há, ser-me-á dado, por justiça ou fado, vê-la como mulher, com seus órgãos todos a postos e o dia lá fora a aguardar nosso brilho.


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Ruptural

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Retive na memória não mais que por poucos segundos seu semblante prolixo e esgotado. As lacunas da minha retina, de ambos os globos oculares, foram adaptadas o bastante para apreender e dispensar essas suas cores, uma vez vistas. Alimentaria meu corpo todas as manhãs ao seu lado, em qualquer café de tais ruas sujas, sem que me lembrasse jamais dos seus traços cansados além do puro momento de encontro ocasional numa mesa, num balcão ou num espelho com as mãos molhadas. Da sua imagem desprezível sobra-me sempre e só o resto de vida, o tempo perdido – e o pó seco da jornada, aquela antiga jornada.


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– A domani!

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Estendi-lhes a mão para que não fosse um tapa na face, uma a uma. A paciência me vem sendo tamanha que ofereço de boa vontade, a quem quer que seja, um carneiro bem temperado aos domingos e feriados. Minha casa cheia, os olhares em encontro desviados de repente, cada sorriso a seu tom e meio tom. Nas últimas noites tenho sido piedoso com todos, não por benevolência ou algo do tipo que porventura esteja em meu caráter, mas para manter, como se pede, o bom e velho decoro do convívio.


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Ofício

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Escuto sua mente daqui. Não estamos de fato longe um do outro, mas bem sei que não saberia disso se não te dissesse claramente, e também o provasse. Queira evitar algum incômodo com tanto, pois não pretendo estender a outrem suas verdades ou frustrações. Apenas peço com educação, a despeito de a você nunca ter me dirigido antes, que pense mais baixo um pouquinho, porquanto está a atrapalhar e muito meu trabalho. Desde já, agradeço a atenção. Sem mais.


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Da natureza das coisas - I

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O vôo daquele inseto milagrosamente alado assemelha-se cada vez mais a um absurdo, um despropósito da natureza – mormente vendo-o de encontro insano ao vidro da parede branca, onde reflete a luz térmica da lâmpada que sustenta minha noite. Pelos ruídos de baque sei que mantêm ele a oscilação entre uma luz e outra, entre a cópia e a origem de sua sanha. Muito gostaria de poder ajudá-lo a encerrar de vez essa existência mísera que ele insiste involuntariamente em levar; mas, descrevê-lo daqui me consome num enfastiado cansaço, suficientemente maior do que qualquer apelo alheio... se de reles bicho ou gente, já tão pouco importa.


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Espírito-Matéria

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Suas técnicas de prazer parecem obedecer a um ritmo austero, impessoal, de controle meticulosamente mecânico dos gestos. É-me um paradoxo poder ainda sentir tudo isso de modo tão humano, carnal. O leve toque em cada parte do meu corpo, a cada instante do seu, modela uma imagem de cenas pensadas, ensaiadas há muito em outra de nossas épocas, que decerto nunca tivemos. Ante intentar o erro nessa esquivada arte com uma espécime de outrora ou doravante nos dias, apraz-me mais ao tino, desde em tuas pernas-engrenagens agora, o deleite na perfeita angulação e infalível razão deste ato.


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Permanências

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Teu fim, deitada nessa podridão alcoólica, não te leva a lugar qualquer. Se escapasses daí por si mesma para meu leito de vida, longe daqui, terias com efeito um bom outro ano adiante, talvez uma cria nos braços, no útero, nas ideias. Garantiria a nicotina de cada tarde por minha conta – cabendo sempre em meu contar, entendas, nada que exceda minha vontade. Seria possível tomarmos conhecimento de tudo, até mais do que isso, quem sabe. E eu cederia contigo à virtude dos vícios dispostos por bem entre os tortuosos sulcos de tuas narinas, sem carecer da passagem do tempo para esquecer dos dias.


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quinta-feira, 21 de julho de 2011

Eiva

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Retomada a redoma dos dias sob os cuidados proto-monásticos em um claustro comum, presta-se em memória por ocasião nova à glória nômade esquecida. Quando era preciso apenas um quantum de água para acalmar as cordas vocais, encontram-se todos agora nestes jardins tais, súditos da escolástica copiada e facilmente reproduzível em breves fórmulas. Muito se quis a ruína dessa parafernália toda, dos cálices aos prédios inteiros, porém ora vemos tamanha submissão oportuna, sustentados sabidamente eles em nada além das pedras e silhuetas divinas que distribuem pouco mais do que extratos, polpas e essências. Sabe-se que há um limiar de entrada adiante que, penso, talvez também sirva de eventual porta de adeus.


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quarta-feira, 20 de julho de 2011

Preâmbulo da Dialética - II

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Este espelho de costas reflete o fortuito ato da queda, ao passo que findo a busca em entreter-me de pé. Pesado qual defunto de muitos séculos embalsamado, atravesso o insólito solo de seixos e musgos, impróprio para o uso, mormente agora. Estirado aos poucos na sub-estrada, horizonte, que me ampara abaixo do normal nível urbano, recito de memória meus últimos versos de anteontem, a contemplar no escuro a outra face do meu semblante ali jogada com seus dentes descarrilados, empapados no sangue e na terra que me vêm de dentro. Sinto além o destino se formar menos nebuloso, partindo ao previsível sacrifício de qualquer coisa que talvez seja minha liberdade, ou o que sobrara dela.


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Preâmbulo da Dialética - I

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Quis desejar meus passos para ouvi-los ao longe. A ânsia de irrealidade me inebria as vistas e saliva na boca a provocar em volta um odor difícil de entender ou suportar, embora ao paladar seja demais aprazível. Assisto assim à derrocada da minha consciência, do logos de costume e de direito. A lucidez antes tão cara para mim, predileta entre as diletas do ego, ora cede lugar ao frenesi letárgico e impulsivo da química natural que me vem aos sentidos, sobrepuja a mente e põe a perder todo o resto.



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terça-feira, 19 de julho de 2011

Senda

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Deu-se o fim pelo princípio dos tempos. A veste suja e pesada, de escravidão recém alforriada, cobriu como véu os olhos da paisagem que a nós se mostrava. Nus, corremos por entre os cantos, no encalço das folhas tremeluzentes ao sabor do Sol, acima e embaixo de nossos pés. Cri no riso do espaço que era vida tirada dos restos mortos, sons quebrados da natureza desfeita e recriável. Enquanto fluxo, os contornos revoltos tornavam múltiplas as veredas adiante, sem um sequer momento para repensar cada passo. Íamos. O sal transpirado ardia o rosto, queimava as juntas e temperava a virilha para o sabor da noite. E via meu corpo se decompor qual alimento digerido em bile e ácido, isento de mais cerimônias orgânicas. Juntos, precisava eu de qualquer força alheia para dar cabo ao começo daquilo, desfecho dos meus braços e pernas dispersos no chão, caído o ontos em espírito e vontade sobre o nada irreal erguido assim, num instante.


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Da hybris

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Escusado seja o excesso. A raiva condensa-se em mim como pedra fática: unida ao mais puro álibi da materialidade em que a sinto, não posso chamá-la simplesmente um impulso de minhas vontades e deixo-a fluir sem controle ou punho que a estanque. E é na volta que faço ao cabo tormentário do livre-pensar, à procura e espera da sapiência que me olvida, que sinto cruamente o desejo insano da ira latente: a mistura e potenciação da sanha e da lucidez que me umedecem o paladar e alquebrantam os olhos fazem-se, então, mote e sentido. 

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terça-feira, 12 de julho de 2011

Oblatum - II

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Repares bem: tenho aqui à entrada de minha casa, diante dos meus rotos pés calçados, dois corpos violentamente desnudados, semi-mortos ao que parece. Toco-os com meu destro e os chuto com considerável força para ver se reagem: estão mortos de fato - ou é o que parece novamente. Muitos cães estavam famintos, provavelmente sedentos também, por estas redondezas ontem à noitinha. Certo é que estes dois aí, defuntos à segunda e à terceira vista, servirão a algo útil com suas respectivas carnes para além do cardápio de costume –  a nós animais, mais nos basta à fome e desejo suas carnes do que suas tantas vidas poupadas. Faz-se uma pena ter ficado tudo tão artificial: o temperar, o assar e a pantomima, do cortar ao engolir, mesmo para os cães que devorarão estes espécimes humanos.


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Oblatum - I

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Aguardo a sapiência de nossos mestres enquanto devoro um javali assado. Comer mecanicamente uma carne qualquer é desrespeitar-lhe a dignidade de ter sido vida, de ter-se escorrido sangue ao romper as amarras do coração à hora do abate. "Matei um ser vivo. Comi, ali no local do ato, toda aquela carne crua em seu próprio sangue e suor." Assim me recordo dos tempos primevos, daquela trivial infância dos homens. Hoje, pago em moedas reais a outros para que matem por mim: são os mesmos que abastecem com pães e vinhos os mercados sacros e profanos. Já aqui servido, longe do local e da cena do feito, mastigo com estes amarelados dentes as vísceras de um animal antigo e há tempos temperado e posto às mesas familiares.
Vejo que não aprecias a violência pretensa e desmesurada ao esbanjar aqui, eu, tantos requintes de frondosa barbárie para simplesmente narrar como encerro minha fome. Cuidas que não mato minha necessidade biológica como o próprio javali que degusto o fazia: vou adiante na busca de um senso estético, superior, que me distancia do ser que engulo precisamente no ato de trucidá-lo. É uma lástima que me desprezes por tão pouco; e, mais lastimável ainda é desrespeitar este rito festivo e alegre. Exalas em tuas crenças um odor doentio e digno de asco, tanto ou mais que a pior das tripas deste suíno que ora jaz em minhas entranhas.


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Da higiene

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Aspectos virais de um povo anêmico.
Vejo-os todos voltados
de costas para nós, intactos,
como se intenção não tivessem
de passar o limiar das linhas imaginárias
que bem além nos separam.
Espera-se, assim,
que não se propague o mal
aos urbanos centros recônditos,
mais que pelo mundo afora.


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Perícia

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E como tens passado uma vez trespassada a lança no peito? Vejo que a vista aludida à tua pessoa não sofre de quesitos dolosos: adiante os problemas dos que se dizem no mundo, ponderar a dor sofrível a um só ente é ser reles e vão. Porém, distinto não sendo da ignomínia vã e reles, amarro meu juízo à falácia tua em querer apregoar isso feito dor enquanto sacra marca, sinal infringido por céus e divinos prepostos. Agravado o instante por tua predita solução de auto-flagelo, redijo os papéis do óbito sem mais cerimônias: estás vivo ainda ou em bordúnico ato poderemos já acabar com esta pantomima?


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sexta-feira, 8 de julho de 2011

Yegua Salvaje

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Exalas ao vento,
de tão longe o sinto,
um aroma em ardor feromônico
que nestes meus úmidos lábios
cristalizam-se em mel, absinto.

Sei que nem os deuses etruscos
os sábios egípcios ou persas,
com todo magno poder que nos mostram,
conceberiam em vida teu busto
e estas ancas sublimes, intensas.

Fazes de ti malícia latente,
que inebria o viril olhar,
interrompe o normal curso da mente
e, na tua face de insuspeita candura,
educas o ímpeto de quem só te quer provar.


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Por um ósculo

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É tua boca
E não os teus olhos
É tua boca
E não teus cabelos
É tua boca – e só sua boca
Que te gera e desfaz
Que harmoniza tua face
Que a enfeita, disfarça.

– Seria tu, Doutora,
Deveras uma mulher,
Ou, escondido, de Monalisa,
Somente um sorriso?


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Certos aspectos

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No relógio de impulso 
vejo assomar uma hora tardia. 
Paro a respiração por completo 
e intento o normal fluxo da natureza, 
sem mais esperançar outro mundo. 
Dou, agora, 
apenas um sentido para sua vida: 
sinto muito.


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Pintura a guache



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Embebido no próprio sangue vejo morrer tão próximo este ser alvo e singelo. Não assoma por certo idade avançada – pouca vivência em um semblante tracejado de fina candura. Pudesse cuidá-lo, preservar-lhe a morte tênue, guardaria este corpo exangue entre as caras relíquias dos homens. Não obstante banhada nas rubras águas de suas veias e as vísceras expostas às vistas, contemplar ali a vida desfeita, olhá-la nos olhos fechados, desvelava em mim uma volúpia candente e terna, impulso de dupla vontade que não se sabe e menos se espera.

Um instante insondável apenas e o ar que nos punha iguais crava agora o limiar que distingue dois mundos. A respiração que fica, entre restos a recender pétalas intumescidas, revela incomparável leveza e serenidade: a violenta partida, sem prévias quaisquer, fazia-se menor, adereço discreto ante a beleza da imagem disposta. A mão esquerda, pálida, erguida com esmero à altura do tórax que sustento, dava-se por vencida, encobrindo em inaudível sinal a força e dom que um dia talvez nutrira. Sua cabeça, pesada em meus braços, amparava-me mais do que eu a ela – e era confuso intentar envolvê-la, aquecer-lhe do frio latente que em breve lhe preencheria toda, por fora e adentro.

Conforta-me estar de joelhos, poder tocar por completo a disforme figura estirada neste chão-asfalto. Quis entender a razão de suas extremidades corpóreas manterem-se intactas: o tronco esfacelado pelo impacto parecia ter absorvido a destruição na sua totalidade, sustentando distante de máculas mormente o rosto jovial. Ela, tornada fato consumado, a cada novo feixe de luz do Sol a pino, mostrava-se quadro feito com delicado pincel, fruto ideal de algum renomado artista de outrora, invocado tão somente para ver sacrificada sua obra ao acaso.

Antevejo o pulsar coletivo que o momento aflora e recobro o tino. Está ela imóvel aqui, diante de tudo; meu sopro cálido e úmido é o único espírito possível àquelas narinas. Não almejo poupar-lhe o fim, que já sem volta se fez. Resguardo, porém, prover um desfecho digno que justifique o primado de nossa existência perante o nada de um ato fortuito. Seria eu a causa mortis de quem ainda há pouco em pleno impulso vital decerto corria, cantava, amava e sentia? Caberia a mim, na ordem harmônica do curso natural das coisas, o libré de algoz? Protagonista eu de um enredo espelhado de triste sina?

O tempo escasso comparado à turba faminta respondeu-me depressa, sem metafísica. Mas não podia, por bem, abandonar a pobre moça, deixá-la à mercê das intempéries e normas urbanas. Relutante em soltar-lhe, ambos ali deitados na própria agonia e carne, éramos um mesmo dracma de efígies opostas, cunhado no calor de um desvario. E o som rompante a rasgar o vento, anunciando a vinda das autoridades locais, torceu-me o estômago e os pulmões frearam: não bastava o fardo de um assassínio sobre os ombros, teria ainda de engolir minha crassa impotência e aceitar a verdade de uma justiça sem qualquer senso estético.



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